Continuamos a assistir, a cada dia que passa, a uma “enxurrada” de medidas milagrosas para combater a crise. Na sua maioria, as soluções apresentadas ainda não passaram de um mero plano de emergência, mal coordenado, que não procura a solução dos problemas estruturais das nossas economias mas sim “apagar o fogo” sem tocar sequer naquilo que realmente interessa.
Porque, infelizmente, para tocar na ferida e atacar o monstro da crise seria necessário antes perceber que este não surgiu de uma mera distracção da mão invisível que tudo coordena. Seria inevitável admitir que a besta sempre lá esteve, criada pelos defensores do capitalismo selvagem e alimentada à custa de profundas desigualdades sociais e crimes contra o meio ambiente.
Enquanto o BCE, os Governos, Bancos Nacionais e Reservas Federais gastam milhões a tentar recuperar os bancos e instituições que em tudo contribuíram para a situação que hoje vivemos, e que não hesitaram em apostar o dinheiro do povo, o mesmo povo, cá em baixo, luta para tentar manter o seu salário real, para tentar pagar os créditos, o custo de vida astronómico e para fugir ao desemprego.
O povo, distraído pelo horror da crise, pelo drama dos bancos em falência e ocupado a tentar comer a pagar a casa, não tem tempo e/ou capacidade para prestar atenção ao que se vai passando em redor. E não nos damos conta que caminhamos para o mesmo abismo que hoje tanta gente vem repudiar publicamente – o capitalismo puro e desenfreado – a dura lei do mercado.
E, quando a poeira baixar, vamos todos perceber que estamos mais pobres. Que os nossos salários não subiram, que os preços não desceram, e que não há mais trabalho. Já os bancos, as grandes fortunas e empresas, aposto o que quiserem, vão sair em tão boa saúde como quando entraram. Até porque está cá o Estado para lhes amparar as quedas.
Enquanto baixa e não baixa, o nosso Governo vai usando a crise para nos convencer de que não há dinheiro. Nem para a Saúde, nem para as reformas, nem para o subsídio de desemprego ou para o rendimento mínimo garantido.
Qual então a solução? Entregar ao privado – esse sim tem dinheiro e está de boa saúde. Deixar que o mesmo sistema que nos trouxe até aqui possa gerir as poucas garantias que ainda nos restam apoderando-se, mais uma vez, do nosso dinheiro e, sobretudo, dos nossos direitos.
Enquanto baixa e não baixa, o nosso Governo vai usar a crise para nos convencer de que estamos desempregados porque não somos suficientemente flexíveis. Porque, vá se lá saber porquê, rejeitamos a precariedade que nos tenta à força impingir! Onde é que já se viu exigir estabilidade, um salário digno e condições de trabalho em tempo de crise??!
A crise financeira é crucial, e faz parte do problema que tem que ser solucionado, mas é só mais uma peça na engrenagem contra a qual temos que lutar. É urgente um novo paradigma, é urgente retirar poder às instituições financeiras e aos interesses privados restituindo às populações o que a elas pertence por direito.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Isso não é uma opinião válida.. é homofobia caro senhor!
Em resposta ao artigo de João César das Neves no DN (http://dn.sapo.pt/2008/10/06/opiniao/casamento_gay_e_imperio_galactico.html)
Tenho dificuldade em perceber se vale sequer a pena dar-me ao trabalho de divulgar e contrariar este discurso, que de tão nojento, homofóbico e anticonstitucional não deveria merecer mais do que o meu (e nosso) profundo desprezo e repudio.
Mas ao mesmo tempo, ao mesmo tempo que procuro ignorá-lo, não posso passar ao lado do facto de um artigo deste nível ter sido publicado num jornal nacional, diário, e (ainda) minimamente conceituado. Não posso nem quero passar ao lado do facto de personagens como João César das Neves, catedrático do conservadorismo, apologista da velha podre e hipócrita moral e dos igualmente bons velhos costumes do silêncio, da opressão, e da exclusão, ainda serem detentores de poder suficiente para se fazer ler desta maneira.
Portugal tem, de facto, gravíssimas dificuldades de vária ordem. E a maior parte delas todos sabemos quais são, embora ninguém esteja disposto a discuti-las. Porque assim dita a moral e os bons costumes, tão defendidos e queridos do nosso antigo regime.
Porque assim fomos ensinados, porque assim foram ensinados os nossos pais! Porque assim nos quiseram fazer querer, que não tínhamos poder ou voz. Que assuntos sérios não são para ser debatidos por mulheres, por jovens. Vamos calar e deixar a politica para quem sabe, não é?! Vamos deixar que nos governem e controlem segundo as boas e velhas morais, católicas e cristãs.
Portugal tem gravíssimas dificuldades, de vária ordem. E uma das maiores é poder abrir um jornal e ler um qualquer professor catedrático, ex assessor de 1º ministro (e que Primeiro...), a fazer uma clara apologia da homofobia, do racismo e da xenofobia, e ainda chamar a isso Democracia, “opinião válida e legitima de ponderar”.
É válido e legitimo considerar a “homossexualidade uma depravação, um acto intrinsecamente desordenado e contrário à natureza.” Tal como o aborto o era... é provavelmente, também, válido e legitimo quem sabe, criar uma lei que mantenha os homossexuais em espaços próprios, longe da sociedade pura e de valores! Tal como o apartheid foi válido e legitimo, de acordo com as politicas altamente racistas e condenáveis da época!!!
A grave dificuldade de Portugal é ser ainda um país onde as pessoas não se podem expressar de forma verdadeiramente livre, respeitando e aceitando as orientações, opções e vontades de quem vive ao nosso lado.
A grave dificuldade de Portugal é continuar a excluir, a não querer aceitar, tod@s aquel@s que não foram feitos nos mesmos moldes, nos moldes do conservadorismo fascista. Todos aqueles que não são brancos, heterossexuais, católicos e iguais a todos os outros.
A grave dificuldade de Portugal é eu, enquanto mulher livre, cidadã de plenos direitos, não poder amar quem quero, quem amo, a não ser que seja à boa velha maneira, caladinha e na sombra.
Fracturante é, depois 34 anos, não me poder sentir livre, e em plena igualdade de direitos. Porque a igualdade de deveres... essa todos temos! Mesmo sendo gays, imigrantes, pretos, amarelos, e pobres.
Não condeno ninguém por não se querer casar, é-me indiferente. É uma opinião, uma decisão válida e legítima do casal que a toma. Tal como não condeno quem o faz.
Agora... uma pessoa qualquer sentir-se no direito de me impedir a mim de casar, só porque sou gay, não é uma opinião válida e legitima caro senhor João César das Neves, é homofobia!
Caro senhor João César das Neves, não somos um “pequeno punhado de jovens e intrépidos heróis que desafia a instituição vetusta e paralisante, atrevidamente lançando uma provocação”. Somos um grupo de mulheres e homens, cidadãos e cidadãs, que sim! Desafiamos a instituição! Que lutamos pelo mundo quer queremos construir. O nosso mundo e o nosso país, onde ninguém tenha medo de debater os problemas realmente importantes, e onde sejamos respeitad@s por quem somos, independentemente de orientações, opções pessoais.
Mas ao mesmo tempo, ao mesmo tempo que procuro ignorá-lo, não posso passar ao lado do facto de um artigo deste nível ter sido publicado num jornal nacional, diário, e (ainda) minimamente conceituado. Não posso nem quero passar ao lado do facto de personagens como João César das Neves, catedrático do conservadorismo, apologista da velha podre e hipócrita moral e dos igualmente bons velhos costumes do silêncio, da opressão, e da exclusão, ainda serem detentores de poder suficiente para se fazer ler desta maneira.
Portugal tem, de facto, gravíssimas dificuldades de vária ordem. E a maior parte delas todos sabemos quais são, embora ninguém esteja disposto a discuti-las. Porque assim dita a moral e os bons costumes, tão defendidos e queridos do nosso antigo regime.
Porque assim fomos ensinados, porque assim foram ensinados os nossos pais! Porque assim nos quiseram fazer querer, que não tínhamos poder ou voz. Que assuntos sérios não são para ser debatidos por mulheres, por jovens. Vamos calar e deixar a politica para quem sabe, não é?! Vamos deixar que nos governem e controlem segundo as boas e velhas morais, católicas e cristãs.
Portugal tem gravíssimas dificuldades, de vária ordem. E uma das maiores é poder abrir um jornal e ler um qualquer professor catedrático, ex assessor de 1º ministro (e que Primeiro...), a fazer uma clara apologia da homofobia, do racismo e da xenofobia, e ainda chamar a isso Democracia, “opinião válida e legitima de ponderar”.
É válido e legitimo considerar a “homossexualidade uma depravação, um acto intrinsecamente desordenado e contrário à natureza.” Tal como o aborto o era... é provavelmente, também, válido e legitimo quem sabe, criar uma lei que mantenha os homossexuais em espaços próprios, longe da sociedade pura e de valores! Tal como o apartheid foi válido e legitimo, de acordo com as politicas altamente racistas e condenáveis da época!!!
A grave dificuldade de Portugal é ser ainda um país onde as pessoas não se podem expressar de forma verdadeiramente livre, respeitando e aceitando as orientações, opções e vontades de quem vive ao nosso lado.
A grave dificuldade de Portugal é continuar a excluir, a não querer aceitar, tod@s aquel@s que não foram feitos nos mesmos moldes, nos moldes do conservadorismo fascista. Todos aqueles que não são brancos, heterossexuais, católicos e iguais a todos os outros.
A grave dificuldade de Portugal é eu, enquanto mulher livre, cidadã de plenos direitos, não poder amar quem quero, quem amo, a não ser que seja à boa velha maneira, caladinha e na sombra.
Fracturante é, depois 34 anos, não me poder sentir livre, e em plena igualdade de direitos. Porque a igualdade de deveres... essa todos temos! Mesmo sendo gays, imigrantes, pretos, amarelos, e pobres.
Não condeno ninguém por não se querer casar, é-me indiferente. É uma opinião, uma decisão válida e legítima do casal que a toma. Tal como não condeno quem o faz.
Agora... uma pessoa qualquer sentir-se no direito de me impedir a mim de casar, só porque sou gay, não é uma opinião válida e legitima caro senhor João César das Neves, é homofobia!
Caro senhor João César das Neves, não somos um “pequeno punhado de jovens e intrépidos heróis que desafia a instituição vetusta e paralisante, atrevidamente lançando uma provocação”. Somos um grupo de mulheres e homens, cidadãos e cidadãs, que sim! Desafiamos a instituição! Que lutamos pelo mundo quer queremos construir. O nosso mundo e o nosso país, onde ninguém tenha medo de debater os problemas realmente importantes, e onde sejamos respeitad@s por quem somos, independentemente de orientações, opções pessoais.
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